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História da Cerveja no Brasil - Parte IV

A Cerveja no Brasil entre os anos de 1910 e 2015


Como visto no artigo anterior, em 1905 ocorreu um declínio no número de cervejarias no país devido a um acirramento da competição. Mas entre 1910 e 1915 o mercado cervejeiro nacional ensejou uma recuperação, com um aumento do número de cervejarias, e isto ocorreu provavelmente devido a um momento econômico favorável aliado com restrições para importação de cerveja. Mas em 1915 veio uma profunda crise no setor devido aos efeitos da primeira guerra mundial (1914-1918) que impactou profundamente a disponibilidade de insumos para produção de cerveja. Tanto o lúpulo quanto o malte eram importados da Alemanha e da Áustria e com a guerra restringindo o comércio, passaram a ser importados primeiramente da Suécia e da Dinamarca e depois dos Estados Unidos e do Chile. Mas essa substituição de mercados se deu com algumas restrições, enquanto em 1913 se importou 21 mil toneladas de malte, em 1916 só se conseguiu 11 mil toneladas.

Essa restrição de disponibilidade de insumos teve algumas vantagens pois levou ao retorno da cultura do lúpulo, em Guarapuava no Paraná e em Lages em Santa Catarina e ao surgimento da primeira maltaria do Brasil que se tem notícia, em 1917 em Ponta Grossa, propriedade do cervejeiro alemão Henrique Thielen (da cerveja Adriática que foi a antecessora da Original e que está retornando ao mercado atualmente pela Ambev). O empreendimento deve ter sido bem sucedido pois em 1919 já surgia outra maltaria em Curitiba, de propriedade da cervejaria Atlântica. Porém a capacidade das duas maltarias juntas chegava a apenas 1.5 mil toneladas de malte por ano.

Porém, com o impacto dessa crise apenas as principais cervejarias sobreviveram. A restrição de disponibilidade de insumos de 21 mil toneladas para 13 mil em três anos dificultou muito a vida dos cervejeiros da época, em especial os pequenos. Durante os quatro anos de primeira guerra mundial o número de cervejarias no Brasil diminuiu de 180 para cerca de 80. E a queda continuou ocorrendo, uma vez que as maiores cervejarias adquiriam as menores que conseguiram sobreviver com dificuldades à crise. Isso culminou com um decréscimo até um número de apenas 13 cervejarias em 1983 que foi o ponto de inflexão, o ápice da industrialização cervejeira. Toda a cultura cervejeira no Brasil estava sob poder de grandes indústrias que produziam basicamente a mesma cerveja industrial sem espírito e personalidade.


Mas a partir de então a situação começa a mudar bem lentamente. Entre 1984 e 1986 são fundadas as primeiras microcervejarias do Brasil em Curitiba, o Bavarium Park e a Ales Bier, e a cervejaria Loeffler em Canoinhas volta a produzir. No início dos anos noventa surge o Chopp do Fritz em Sumaré, o Dadobier em Porto Alegre, a Ashby em Amparo e é lançada a Kaiser Bock. Na segunda metade dos anos noventa surgem importantes cervejarias que seriam o alicerce da revolução cervejeira; Krug Bier, Baden Baden, Borck e Alpenbier. E com isso, pode-se ver que em 2003 tem-se um novo ponto de inflexão que marca o deslanchar da revolução cervejeira no Brasil.


Para avaliar o número de cervejarias durante maior parte do século XX eu parti do número que consta na avaliação da SINDICERVE em 2004 (47), e fui avaliando as alterações no mercado (inaugurações, aquisições e fechamentos de fábricas) que constam na cronologia do blog Cervisiafilia

Juntando-se essa análise, com os dados levantados no artigo anterior e com o número de 232 cervejarias em 2014, de acordo com o Mapa,  foi possível levantar o gráfico abaixo de evolução do número de cervejarias no Brasil.






Muitas conclusões interessantes podem ser feitas ao se analisar este gráfico. Um ponto que me chama a atenção é a similaridade na curva entre os anos de 2003 e 2013 com o que ocorreu 140 anos antes, entre 1865 e 1875. No entanto, os motivos que levaram à ocorrência de tais curvas são totalmente diferentes.

Como já visto, o forte aumento de número de cervejarias ocorrido 140 anos atrás se deu devido a uma disponibilidade de capitais, industrialização e cultura cervejeira nascente. Já a revolução da última década se deveu mais a uma mudança cultural. O brasileiro começou a compreender o que vem a ser qualidade em se tratando de cerveja e criou-se uma demanda por cervejas artesanais. O empreendedor-apreciador de cerveja percebeu isso e resolveu abrir sua própria cervejaria, uma coisa leva a outra e a consequência é a atual revolução cervejeira.

Comparação Quantitativa com o Mercado Americano


Outra curiosidade é sua semelhança com o gráfico de número de cervejarias nos Estados Unidos entre 1887 e 2014. O comportamento das curvas no período é muito similar, com a diferença na proporção e no fato que no Brasil se teve um impacto maior com a Primeira Guerra e nos Estados Unidos houve um período de Lei Seca.

Fonte: http://scottjanish.com/interactive-chart-history-u-s-breweries/

Analisando-se o número de cervejarias por população nos dois países chega-se a uma conclusão interessante. Aparentemente o mercado brasileiro possui uma tendência muito mais forte à concentração que o americano, já havendo ultrapassado a marca de uma cervejaria por 8 milhões de habitantes, enquanto o mercado americano chegou apenas a uma cervejaria por 5 milhões. Ambos chegaram a esta marca por volta de 1980. E a desconcentração foi muito mais rápida lá do que aqui. Em vinte anos se baixou de 5 milhões para cerca de 200 mil habitantes por cervejaria.

Por outro lado, o mercado americano aparentemente estabilizou em 100 mil habitantes por cervejaria, enquanto o mercado nacional ainda está pouco abaixo da marca de 1 milhão de habitantes por cervejaria. Para fins de comparação, o mercado alemão está estabilizado há anos em torno de 60 mil habitantes por cervejaria.



Fonte: http://scottjanish.com/interactive-chart-history-u-s-breweries/



Eu sempre me perguntava o que o
Homem-Aranha tinha a ver
com a Antarctica
O movimento de ampliação do número de cervejarias também é coerente com o que acontece atualmente no mundo todo. Conceitos como sustentabilidade, alimentação saudável, alimentação orgânica, gastronomia e permacultura são totalmente consistentes com uma produção mais artesanal de bebidas e alimentos.

Comparação Qualitativa com o Mercado Americano


Fazer uma comparação qualitativa entre a cerveja produzida no Brasil e a americana do período é uma tarefa bem abstrata. É possível encontrar alguns relatos em jornais do período, mas esses relatos são tão subjetivos que levantam dúvidas. E um relato em 1966 que cita opinião de "especialistas", conclui com uma afirmação que denota que o repórter não era muito sério - "Especialistas dizem que a cerveja brasileira é a melhor da América do Sul e definitivamente melhor que a americana, isto ocorre principalmente porque a cerveja brasileira tem uma graduação alcoólica que chega a 12%(!?)".


De qualquer forma, realizando buscas no Newspaperarchive.com eu encontrei, entre 1940 e 1980, seis referências à cerveja brasileira com algum juízo de valor. Destas referências apenas uma foi negativa. A de um sargento americano que ficou em Natal durante a Segunda Guerra e comparou a cerveja brasileira com a cerveja caseira da época da Lei Seca.


Eu procurei pesquisar o contrário. Referências à cerveja americana em jornais brasileiros no memoria.bn.br. Não encontrei nenhum juízo de valor, mas encontrei algumas referências à importação de cerveja dos USA.

Tudo isso leva a concluir que durante este período de concentração do mercado, a cerveja bebida aqui no Brasil era razoavelmente similar à americana da época.



E com o artigo de hoje eu encerro minha análise da história da cerveja no Brasil. Considero que foi um estudo interessante e que desvendou alguns fatos históricos como as tentativas de cultivar lúpulo no Brasil e a evolução no número de cervejarias no país ao longo do tempo. 






Fontes

                                                                                                                                                  
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